
Uma Carta Para Mim
Justificando:
Quem de nós não terá uma boa razão para ter escrito uma carta para si mesmo? Se a estrada já tiver sido percorrida por muito tempo... a longevidade
se reveste, muito mais ainda, de situações que justificariam o propósito.
O difícil é a escolha . Mas vou optar por uma atitude tomada aos 17 anos.
Escrevendo a Carta:
Camaragibe , 20 de setembro de 2009
Querida Claudete, você foi uma adolescente atípica;
enquanto todas amiguinhas namoravam meninos de carne e osso você se encantava com os rapazes saídos dos livros de M.Delly, tomava o lugar das heroínas e vivia grandes Romances de Amor.
Com estes livros viajava por lugares onde supunha
jamais pisaria a não ser naqueles momentos de sonhos intensos. Você sentia-se preenchida totalmente e assim o tempo dos 12 aos 15 anos foi fluindo entre os estudos regulamentares e a avidez pelo dia que chegaria na banca de revista mais um livro de M.Delly.
Você não tinha namorado, mas aprendeu a dançar,
era vaidosa no vestir e no pentear , gostava de organizar festinhas típicas do pequeno lugarejo onde vivia , como Baile das Rosas, Baile da Primavera, e imaginem , até desfiles de moda com a finalidade de angariar fundos para a Igrejinha e outras festinhas. Enfim era uma jovem atuante .
O seu pequeno mundo, Claudete, começou a desmoronar, agora percebe-se claramente, quando você resolveu namorar o menino
bonito e cobiçado, levada pela vaidade de poder tê-lo e pela “vergonha” perante às amigas de nunca ter namorado pra valer!
Você não estava preparada para enfrentar este namoro. Você percebeu de imediato a diferença entre apaixonar-se por um personagem de ficção e um real. Apesar de não se considerar bonita e tantas outras assim cobiçarem seu Pretendente , e ele ter preferido você, mais pelas suas virtudes e caráter que por sua beleza, isto não foi motivo para você sentir-se inferiorizada.
Durante 02 anos você namorou um rapaz que não amava , que era querido pela sua família e como se dizia naquela época, era um rapaz
de futuro. Só que você , Claudete , estava sempre comparando os amantes saídos dos livros de M.Delly com o que estava ao seu lado. Coitado, ele nunca soube disto e você está descobrindo agora...
Foi numa terça-feira de Carnaval, às 08 horas da
noite, você havia terminado o namoro que estava sufocando-lhe, você tinha outros projetos para sua vida, sonhava com outro mundo diferente daquele e não se via
precocemente casada e cuidando de um monte de filhos como era comum.
Como um pássaro, achou que havia aberto
a porta da gaiola dourada. De repente, no salão onde se realizava o Baile Carnavalesco, a música de Seu Filemon parou de tocar. O moço no microfone avisava para você ir até
à casa onde morava seu ex-namorado porque ele estava fazendo roleta russa com o revolver do irmão mais velho .
Você foi com sua mãe e deparou-se com uma cena repulsiva e bastou pedir que o espetáculo deprimente acabou. Claro que você não quis mais voltar ao Baile.
No outro dia pela manhã, Quarta-feira de Cinzas, ele chegou com uma rosa na mão. Mesmo com o coração apertado , você não permitiu que ele dissesse nada e o mandou embora , pois não tinha mais volta.
Ele saiu da sua vida, foi servir ao País no Canal de Suez, veio morar na Capital , tornou-se Economista e casou com sua melhor amiga.
Depois de muitos anos suas vidas se cruzaram e você teve a certeza de que tomara a decisão correta ao afastá-lo da sua .Ele revelou-se uma pessoa mesquinha e vingativa, não perdoou ter sido preterido no passado ,cometeu pequenas vilanias mesmo tendo construído uma vida bem sucedida. Você soube separar
as coisas e não deixou de manter contatos com a amiga , esposa dele.
Você não sabe até que ponto ela tomou conhecimento dos fatos , mas pelo menos trata-lhe com cordialidade .
Hoje você sabe que por ingenuidade , considerando que ambos eram jovens , poderia ter dado um novo rumo a esta triste história , não devia nunca ter alimentado aquele namoro , teria usado de mais sensatez ter se aconselhado com pessoas mais experientes.
Você não teria condições de viver com um homem tão passional. Graças a M.Delly , que abriu o seu coração para a paixão sonhadora, onde prevalece sempre o amor, você desenvolveu sua porção romântica de uma forma excessiva .
Por maiores que tenham sido as dificuldades que você enfrentou nos seus relacionamentos afetivos que se seguiram, prevaleceu sempre a lucidez de por na balança sentimento e razão e fazer a escolha que achava correta, partindo sempre do princípio que possuir o outro sem dar-lhe chance de respirar é prerrogativa dos inseguros e insensatos.
Você, apesar da pouca idade, teve a coragem de
assumir uma atitude ao buscar o horizonte que vislumbrava na cidade grande
sem ódio no coração e sem medo de ser feliz! Este foi o lado positivo deste episódio vivido na adolescência.
É o que gostaria de ter-lhe dito naquela ocasião.
Atenciosamente, Claudete.